Susana Torres

A Susana Torres é coach, especializada na área desportiva. Com uma sólida carreira na banca, dedicou-se ao estudo do desenvolvimento pessoal e lançou-se num mundo dominado pela presença de homens: o futebol! Nesta entrevista, a Susana partilha preciosas aprendizagens que nos podem ser muito úteis a todos, afinal de contas todos podemos beneficiar de uma certa mentalidade desportiva nas nossas várias atividades! A Susana está prestes a lançar um site dedicado ao coaching desportivo, pelo que sugiro que te mantenhas atento a www.primelinecoaching.com.

 

TMC: Susana, como é que uma mulher ganha rapidamente espaço num mundo de homens, como o do futebol?

Susana: Tudo aconteceu por acaso e com um jogador de futebol. Este jogador, que na altura colocava em causa a sua carreira desportiva, comentou comigo o seu sonho de criança e acabámos por lançar um desafio um ao outro: Ele transformava o seu sonho num objetivo a seis meses, e eu dar-lhe ia todas as ferramentas que possuía para o ajudar a conquistar esse objetivo.

Foram seis meses de trabalho intensivo, onde eu aprendi bastante sobre futebol e que no fim tiveram o resultado esperado, o jogador rumou a uma das ligas mais exigentes do mundo!.

(Esta é uma história que em breve será contada em livro, pelo que prefiro não me alongar muito sobre ela….)

Depois deste trabalho e perante estes resultados, não foi difícil haver outros jogadores a querer fazer o mesmo e equipas a solicitar este tipo de acompanhamento para alcançar os seus resultados.

 

TMC: Quais são, na tua opinião, as especificidades do coaching desportivo e que diferenciam do coaching de vida?

Susana: O coaching desportivo está muito ligado aos objetivos e consequentemente aos resultados. Talvez por isso tenha uma dinâmica diferente.

Um atleta procura normalmente melhorar a performance desportiva e obter melhores resultados, razão pela qual a forma como os conteúdos são abordados possuem um cariz muito prático.

A base de trabalho é essencialmente a mesma do coaching de vida, no entanto procuro adoptar metodologias especificas que visam a alta performance. São exemplo dessas metodologias as ferramentas que nos proporciona o novo código da PNL (Programação Neurolinguística), por serem práticas e altamente transformadoras.

No coaching desportivo, o foco são os resultados que o atleta pretende alcançar, e é aí que colocamos toda a nossa atenção.

Quando trabalho equipas este trabalho torna-se mais complexo, uma vez que é fundamental envolver não só os atletas como a respetiva equipa técnica.

 

TMC: Tens trabalhado com atletas, treinadores e equipas. Quais são as principais aprendizagens?

Susana: A minha experiência tem sido desenvolvida em grande parte no mundo do futebol, que é um mundo bastante fechado e com características muito específicas.

Existe um grande e complexo sistema de crenças com o qual todos os intervenientes lidam constantemente, sendo que o simples facto de questionarmos essas mesmas crenças já constitui por si só um factor de transformação de atitudes e comportamentos, promovendo grande impacto nos resultados.

Por exemplo, é frequente ouvir treinadores e jogadores dizerem “estamos a viver uma fase menos boa e precisamos de uma vitória para a equipa voltar a ganhar confiança”. Eu costumo brincar cada vez que ouço este tipo de afirmação, digo-lhes “isto significa que vamos ter que “morrer” em campo para garantir uma vitória, e no fim do jogo vamos para o balneário confiantes. O que dará muito jeito depois do jogo”! A confiança é algo que precisamos e que nos ajuda a obter uma melhor performance, sendo por isso fundamental aprender a aceder a este recurso antes de entrar em campo e não depois!

Verifico com frequência que o sucesso de um jogador de futebol não tem a ver apenas com as suas qualidades técnicas ou tácticas, tem muito a ver também com a forma como este lida com a adversidade, frustração, desmotivação, ausência de resultados, e como ele se consegue manter firme naquilo em que acredita e nos seus objetivos.

Existem atletas de enorme talento que nunca conseguiram alcançar grandes patamares na sua carreira, bem como atletas de menor talento que não tiram o foco dos seus objetivos e que trabalham arduamente para os conseguir alcançar. A grande característica destes é a persistência, estes nunca desistem.

Trabalho com um atleta que um dia me disse que “as pessoas podem desistir de mim, mas há uma que eu sei que nunca vai desistir… Eu próprio”!

 

TMC: Existe resistência a este tipo de abordagem, Susana? Como é que o papel do coach é visto pelos vários intervenientes no mundo desportivo?

Susana: Existe algum desconhecimento sobre o trabalho de um coach, alguma tendência para confundir um coach com um psicólogo.

O meu papel junto dos atletas visa o desenvolvimento da sua performance desportiva, trabalhamos a excelência, o objetivo é que um atleta seja capaz de aceder a todos os seus recursos internos de forma a conseguir obter o melhor desempenho possível a cada momento. Assim, existe sempre alguma resistência que é rapidamente convertida em curiosidade.

Na verdade, qualquer tipo de resistência desaparece, no momento em que o atleta ou equipa começa a alcançar e perceber os resultados.

No caso do trabalho individual, não se verifica qualquer resistência, pois é o atleta que procura normalmente este tipo de trabalho e acompanhamento, sendo o nível de compromisso extremamente elevado.

No futebol, dá-se bastante importância ao trabalho técnico e táctico, sendo a componente física aquela que absorve quase toda a atenção. No entanto, num contexto de alta competição, é toda a componente mental que vai fazer a grande diferença.

A forma como uma equipa lida com os diversos momentos do jogo, pode ditar a vitória ou a derrota, e isto, é algo que se consegue com uma boa preparação mental da equipa antes do jogo.

 

TMC: Com base na tua experiência, o que acreditas serem as bases de uma boa preparação mental para um atleta ou equipa?

Susana: Diria que são quatro coisas. Em primeiro lugar, é fundamental que um atleta faça um percurso de “olhar para dentro” e conhecer-se a si próprio, bem como a forma como interage com o mundo á sua volta. Antes de partir para algum lado, definir algum objetivo, é fundamental perceber “onde estamos”.

Depois, os objetivos. Os objetivos são aquilo que em coaching chamamos o “ponto B”, devem estar sempre presentes, quer a nível individual quer a nível de equipa. Um atleta deve ter bem presente o sitio onde quer estar daqui a um determinado tempo, sendo para isto fundamental efetuar um planeamento da carreira e consequentemente os passos (metas) para lá chegar.

As equipas também precisam de objetivos bem definidos. Querer ganhar não é suficiente, uma vez que, este não é um objetivo específico ou de grande impacto. Ainda não conheci nenhuma equipa a entrar num jogo com o objetivo de perder… A experiência diz-me que é mais eficaz trabalhar com objetivos específicos, por exemplo, querer ganhar por 4-0.

Fui solicitada para ajudar uma equipa da primeira divisão portuguesa de futebol a preparar o ultimo jogo da época, era um jogo difícil pois a equipa não ganhava há vários jogos, e o empate dava acesso direto à fase de grupos da liga Europa. Depois de uma semana intensa de trabalho com esta equipa, o objetivo estabelecido foi o de ganhar 4-0, um objetivo bastante ambicioso tendo em conta o histórico recente de resultados, que foi ainda assim assumido por toda a equipa. No final do jogo, o marcador mostrava o resultado, 5-0!!

Em terceiro lugar, temos a confiança. Esta é uma das questões mais faladas no mundo do futebol, à qual se atribui uma grande importância. É importante perceber que a confiança é um estado ao qual o atleta acede, ou não. Uma das soluções é colocar a atenção nas coisas que controlamos, eventualmente ter atenção àquelas que podemos influenciar… considero que colocar a atenção nas coisas que não controlamos é o caminho para a ausência de confiança.

E, por último, temos a concentração e foco. É tão importante estar atento, como saber colocar a atenção no sitio certo! Algo que me dizem regularmente é que o jogo foi bem preparado, a equipa sabia o que tinha que fazer, entrou em campo preparada, e depois as coisas não aconteceram… perderam a concentração e eficácia. Na verdade, uma vez em campo, existem uma série de factores que podem influenciar a concentração e o foco, o desafio para o jogador é saber onde colocar a atenção a cada momento e como “desligar” de todos os elementos que não promovem a melhor performance.

Existem jogadores que se preocupam com o estado do tempo antes de um jogo, ou com as condições do relvado, sendo normalmente este um motivo de conversa entre jogadores. Estas são coisas que não controlamos, são o que são e não as conseguimos alterar, logo, é fundamental transferir a nossa atenção para coisas que possamos controlar considerando as condicionantes existentes. Não são as condições do relvado que serão o problema, o problema será a forma como entendemos que esse aspecto influencia a nossa performance ou a performance da equipa.

 

TMC: O que é que todos podemos aprender com o coaching desportivo? Como é que podemos usar mentalidade de atleta para gerar melhores resultados na nossa vida?

Susana: Existem pelo menos três coisas sobre as quais podemos refletir e transportar para as nossas experiências de vida:

O espírito de equipa: um atleta sabe que não ganha sozinho, por muito bom que o atleta seja, é o desempenho da equipa que se vai traduzir em resultados. Mesmo nos desportos individuais, existe uma equipa que prepara e treina o atleta, a interação entre o atleta e a equipa tem um impacto gigante no seu desempenho.

A Paixão: um atleta vive muitas vezes a profissão que sempre sonhou, faz aquilo que o apaixona e realiza. Como seriam as nossas empresas se fosse possível colocar a componente “paixão” no desempenho dos seus colaboradores?

Também acompanho empresas e seus empresários (coaching empresarial) e esta é uma das questões que trabalhamos com as equipas. Descobrir o que nos apaixona naquilo que fazemos, é uma excelente forma de atingir a alta performance em qualquer área da nossa vida.

O Compromisso: O atleta sabe bem qual o seu papel bem como a sua contribuição nos resultados da equipa. Verifico em algumas empresas, que as pessoas desconhecem o que se espera delas, qual o contributo que o seu trabalho tem nos resultados da empresa.

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